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A casa dos avós

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  A casa dos meus avós Lembro-me da casa dos meus avós maternos, numa idade propícia a fantasias e cogitações existencialistas. Era uma casa sombria e carregada de mistérios. As paredes volumosas e graníticas albergavam segredos insondáveis de famílias perdidas no tempo e só conservados nas conversas à lareira… Recordo de, num tempo longínquo da minha infância de mulherzinha precoce entre folhos e florzinhas, ter entrado numa casa escura sem eletricidade nem luz solar. Esta só podia, sorrateiramente, assomar por uma vidraça no quarto dos meus avós para anunciar uma nova jornada de trabalho. Era a única janela da casa. O resto eram tábuas de sobrado com buracos e aberturas (por onde passava uma candeia para iluminar a adega que ficava por baixo da cozinha); eram paredes de madeira com frinchas, que permitiam observar as atividades enigmáticas dos vizinhos; eram blocos de granito frio e austero com esconderijos onde se guardavam produtos agrícolas mais raros e menos perecíveis, c...

Senhora de si…

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Senhora de si… Quando a menina botão de rosa desperta de um longo sono, Vive em folhos e lacinhos, tiaras e vestidinhos, numa vida deleitosa… Deseja ser princesa porque rima com beleza E mantem o seu destino de uma forma prazerosa…   Quando a primavera, com todo o seu vigor, desponta, A menina botão de rosa torna-se mulher de corpo inteiro. E o ventre, onde germina uma seiva profetisa do universo, Transforma-se em fonte, em teto, em colo, em canteiro!   Quando o estio, no seu auge, os pomos amadurece, A mulher de corpo inteiro torna-se senhora fera amansada . E, tal como Sísifo, suporta o inferno dos seus dias e o dos outros. E, nos olhos, traz ninhos de abraços e uma brisa descansada …   Quando o outono as árvores começa a pintar, A senhora fera amansada volta a menina botão de rosa O caminho fica mais curto e merece concentração    Qualquer degrau é penoso, mas a vida continua sempre, sempre prazerosa… Lizete Pinheiro ...

Ao Sérgio Matias, o nosso pai e avô!

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  Para todos os pais ou avós, principalmente de meninas (que são um amor para toda a vida...), e para todos aqueles que ainda o poderão ser...!!! Para o meu pai (e outros pais também especiais)  Quando era pequenina, o meu pai tinha: Um colo singular, pernas para baloiçar e barriga para pular… Era um galã de cinema, com olhos de musgo aveludado e sempre bem penteado… Nas épocas festivas, estava sempre longe, perdido, ausente…   Mais tarde... quando a minha altura atingiu o terceiro botão da sua camisa e crescia na ponta dos pés,  dava-lhe um beijo repenicado na cara barbeada, depois da espuma sulcada pela gilett e.   Nessa fase de criança-adolescente, tornou-se o meu porto de abrigo, opositor do chinelo, excelente orador e exímio contador de façanhas e patranhas….  Foi ouvinte paciente e crítico eloquente…, Empreendedor, visionário e, por vezes, revolucionário… Fortaleza intransponível, de ousadia e teimosia… Era também um bom jogador de...

À Cecília moça, mãe, mulher, e avó…

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  Até aos cinco anos, depois da minha mãe ter cortado a trança, é ramos apenas as duas de mão dada… Eram as visitas às amigas, os passeios nos jardins do Mochico, com vestidinhos de veludo vermelho, rendinhas, laços e totós arrepiados que demoravam uma eternidade a concluir, mas poucos instantes a desmanchar … Esses…foram tempos de emoções fortes: As amígdalas enfadonhas, as lombrigas, os mosquitos, o paludismo, a cólera, ou a temida febre amarela…as corridas para o hospital em chinelos …o intragável óleo de fígado de bacalhau, as toneladas de hortelã e as quedas desastrosas… - Vai lavar as mãos, não coces, pára quieta!!! - Amanhã tens de levar “uma pica” na Vila Alice (ou no Bairro Popular)… Foram também momentos de birras intermináveis, do chinelo sempre em riste, da teimosia desesperante da mãe e da filha - Come a sopa, Lizete! Não sais da mesa, enquanto não acabares. Olha que levas com o chinelo! Não sejas teimosa!!! - Dói-me a barriga!!Dói-me o estômago!!! Não consigo ...

Devaneio(s)… em quatro elementos

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  A ntes que Cronos devore certos rostos  da memória, Ouso ainda... Percorrer contigo, áridos desertos e perder-me nos braços arábicos das gentes Conduzir-te até ao fim do mundo e contemplar a singularidade de um céu em chamas Revigorar-me no leito das ondas de um mar eternamente desconhecido E, enfim, extenuada, deixar-me adormecer ao sopro cálido e infindável do vento….   Lizete Pinheiro dezembro de 2021

Voltamos à Escola

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À semelhança dos bandos de pardais, o início do ano letivo traz a exuberância das cores aos espaços… Os sons de bulício, as estridências, os sussurros, as melodias povoam o silêncio… As salas de aulas revelam átomos e forças em ebulição; são palco de palavras ditas, de sons envergonhados em línguas reinventadas; permitem a localização de tempestades de risos, mares de preocupações ou nuvens de desassossego; são Estados neutros onde o passado se renova e o futuro se adivinha; lugares de liberdade física, de evasão, de devaneio, de emancipação criadora. São viagens entre microcosmos que conferem utilidade aos algarismos, às gramáticas, às teorias e às medidas de que é feita a vida prática e afetiva… O início do ano letivo é o momento a partir do qual se vão construindo etapas em cada obstáculo superado, em cada êxito conseguido… A escola é constituída por todas as pessoas que nela habitam e que a transformam em verdade e em vida.  Lizete Pinheiro setembro de 2021

Tributo a Álvaro de Campos

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Tributo a Álvaro de Campos Outrora, quando fui outro (Praia do Carvalhal, setembro de 2021) Outrora, quando fui outro... Eram manhãs desertas de penas e gritos e gente e sono... Eram morenas praias de areia namoradas por novelos de espuma... Eram palmares retilíneos escalados pela criançada à cata de água de coco... Eram beijos longos do sol vermelho, laranja, violeta, na pele do anoitecer... Hoje é visão, deslumbramento, distância, fugacidade, insónia! Hoje é um horizonte mágico e intransponível de regresso a casa! Hoje é um tumulto de asas, crocitos e despojos de vidas no rasto dos dias! Hoje é tempestade, porque as gaivotas permanecem, devorando a terra!   Lizete Pinheiro, julho de 2019